quinta-feira, 31 de dezembro de 2009



BRINDE

ano novo: vida nova
dívidas novas
dúvidas novas

ab ovo outra
vez: do revés
ao talvez (ou
ao tanto faz como fez)

hora zero: soma
do velho?
idade do novo?
o nada: um ovo

salve(-se) o ano novo!


José Paulo Paes
in UM POR TODOS(Poesia Reunida)
"O Ano Novo ainda não tem pecado:
É tão criança...
Vamos embalá-lo...
Vamos todos cantar juntos em seu berço de mãos dadas,
A canção da eterna esperança."

Mário Quintana

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009



Nem um ano vive um coração sozinho.
Mesmo só, da solidão se esconde.
Coração é feito passarinho.
Voa alto, leve e para longe,
Mas sempre volta pro calor do ninho!

Por Pâm.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Organiza o Natal

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Carlos Drummond

"Como se quisesse abraçá-lo para confirmar-se, como se pudesse abraçar-se para confirmá-lo. ''

Caio F.

domingo, 20 de dezembro de 2009

A Saint-Exupéry




A Saint-Exupéry


Minha insônia é fruto da dúvida
que rega minha preocupação...
Quando me ponho a olhar as estrelas
e consigo ouvi-las todas sorrindo,
posso ter uma noite longa e tranquila,
mas se por um acaso não ouço nada
é para mim como se todas chorassem...
Então me lembro daquela história
e não consigo dormir, o sono não vem
sim, o carneiro comeu a flor - eu penso,
e todas as estrelas apagaram...


Mas a raposa foi sábia em suas lições
e o principezinho um ótimo aluno.
Estando eternamente responsavel pela rosa
ele não descuidou dela por um minuto...
Eu me forço acreditar nisso,
então passo a admirar a noite
e as estrelas se tornam belas de novo,
pois nelas se escondem um grande amor
entre o pequeno principe e a rosa
aos cuidados de um carneiro
que ainda não posso ver.


De qualquer forma, o essencial é invisível;
para os olhos, não para o coração...
e se alguem pede um carneiro
é porque existe, e isso basta
para que eu seja feliz,
toda as vezes que meu coração
insiste em permanecer cego.


*


Texto da minha linda Débora Paixão.

E imagem feita por mim.


ps.: "carneiro assim sem boca, que é pra não comer a tal da rosa".

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009


'Deus e a nossa alma vivem em contínuo diálogo desde os tempos mais remotos. São confidentes um do outro. Sabem segredos preciosos que não nos contam enquanto não nos for possível entendê-los. Vêem cada fato sob uma perspectiva pela qual muitas vezes ainda não sabemos enxergar. Conhecem o jeito como as peças se encaixam, enquanto nos desgastamos tentando encaixá-las de qualquer maneira, com sofreguidão, para atender aos nossos interesses imediatos, mesmo que, restritos pela urgência dos seus apelos, não tenhamos visão do panorama real.A fé é um exercício pra vida inteira.
Na fé, eu sou capaz de me dizer, com amorosa humildade, que grande parte das vezes eu não sei o que é melhor para mim. Eu não sei, mas Deus sabe. Eu não sei, mas minha alma sabe.
Então, faço o que me cabe e entrego, mesmo quando, por força do hábito, eu ainda dê uma piscadinha pra Deus e lhe diga: “Tomara que as nossas vontades coincidam”. Faço o que me cabe e confio que aquilo que acontecer, seja lá o que for, com certeza será o melhor, mesmo que algumas vezes, de cara, eu não consiga entender.'


Ana Jácomo

Ô menina, sai dessa janela. Não precisa chorar. Não vê que se um ano vai, outro sempre vem? Daí, eu te garanto!... vai ter um sol grande lá fora e você vai poder brincar de novo. E de novo... No novo.

Branna Lorenna

Ela dançava à beira do precipício. Era consciente do perigo, mas parecia que aquilo lhe despertava para si. Sentia quente a respiração. O coração batendo vivo. Louco. A dose necessária de vida à vida.

Branna Lorenna

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Seus dedos tocavam-se. Si sustenido. Transcorriam cada uma daquelas teclas monocromáticas. Alcançavam notas invisíveis. Era um som único. Arrisco até mesmo dizer que era 'divino'. E de si saia uma luz, uma cor... Agora um Sol. Enquanto isto havia o ballet de suas mãos, numa delicadeza de dar êxtase. Seus olhos conversavam cada símbolo daquela partitura. E em mim acontecia algo novo, um borbulhar de sentimentalidades. Mi. Ela nem desconfiava, mas acabara de musicalizar uma nova vida.

Para Hadassa Lorrayne.

Branna Lorenna

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."
Caio Fernando Abreu
''Que Deus ouça também as preces que lhe dirijo quando me parece que eu não acredito em mais nada. Quando sou incapaz de ver qualquer coisa além do foco onde coloco a minha dor. Quando não consigo articular meus pensamentos nem entrar em contato com alguma doçura que me faça lembrar das coisas que realmente nos movem. Quando não lhe dirijo nenhuma prece. Nem com palavras. Nem com um sorriso enternecido quando dou de cara com uma flor. Com um pôr-de-sol. Com uma criança. Com uma lua cheia. Com o cheiro do mar. Com o riso bom de um amigo. Que ele me ouça com o seu ouvido amoroso e me acolha no seu coração, porque é exatamente nesses momentos que eu não consigo ouvi-lo.''

Ana Jácomo

'Nós tínhamos uma coisa que chamo de 'identificazzione di una donna'.
Era uma aproximação de alma que rolava comigo, com você, ... pessoas sensíveis, que têm uma alma parecida. As coisas que a gente escolhia para enxergar nesse mundo eram parecidas.
Apontávamos para os mesmos lugares. (...)'


por Bruna Lombardi
Trecho do livro 'Para Sempre Teu'

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamentos e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que escrevo é invenção;
só dez por cento que é mentira.

Manoel de Barros

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Fome de amor




Fome de amor é quase
maior que o amor
Fome de amor nunca termina
fica brilhando na retina
inventando novos passos
fome de amor é feito casa
para sempre em construção
desde o mais distante passado
até o mais remoto futuro.

Roseana Murray


Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns treze anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, dezesseis, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhe asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.

Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhe os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor, e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.

Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã, quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos?

E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?

É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram.

E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.


O amor por entre o verde, Vinicius de Moraes

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

"Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredito da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade."

Rubem Alves

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A pessoa errada.


"Pensando bem, em tudo o que a gente vê, e vivencia, e ouve e pensa,

não existe uma pessoa certa pra gente

Existe uma pessoa que, se você for parar pra pensar é,

na verdade, a pessoa errada

Porque a pessoa certa faz tudo certinho

Chega na hora certa,

Fala as coisas certas,

Faz as coisas certas,

Mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas

Aí é a hora de procurar a pessoa errada

A pessoa errada te faz perder a cabeça

Fazer loucuras

Perder a hora

Morrer de amor

A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar

Que é prá na hora que vocês se encontrarem

A entrega ser muito mais verdadeira

A pessoa errada, é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa

Essa pessoa vai te fazer chorar

Mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas

Essa pessoa vai tirar seu sono

Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível

Essa pessoa talvez te magoe

E depois te enche de mimos pedindo seu perdão

Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado

Mas vai estar 100% da vida dela esperando você

Vai estar o tempo todo pensando em você

A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo

Porque a vida não é certa

Nada aqui é certo

O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo

Amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo

E só assim é possível chegar àquele momento do dia

Em que a gente diz: "Graças à Deus deu tudo certo"

Quando na verdade

Tudo o que Ele quer

É que a gente encontre a pessoa errada

Para que as coisas comecem a realmente funcionar direito prá gente."







texto de Luis Fernando Veríssimo,postado por Pâmela,para o Jardim Furta Cor!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

pequena homenagem a pequena grande idealizadora furta-colorida!




bem Branninha isso aqui é pq tú merece!
e eu tô com tanta saudade que não pude resistir
juntando tu com o Vinícius de Moraes o mundo parece perfeito!

"Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..."

Vinicius de Moraes


[off: mais uma vez eu e meu "eu te amo mas não espalha"!]

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



Querido Deus,

(…)

Leva-me… Mesmo sem eu merecer. Leva-me aonde é difícil chegar pelas pedras na estrada ou pelo descrédito de que consigo. Acreditas em mim e por mim. Acreditas que chegarei quando nem sequer saí do lugar. Dás o primeiro passo sempre… para me inspirar confiança e certeza da Tua presença no caminho. Vês além quando estou confusa com os obstáculos ou cansada pelo sol. És também a minha sombra. Tudo o que eu sou ainda é sempre pouco se contemplo ligeiramente quem Tu és. Se me detenho em Ti, desapareço, pois Tua imensidão me toma e completa. E daí vem à súplica: Mesmo sem eu merecer, não desistas de mim. Se bem, que eu mesma sei que nunca desistirias, afinal desistir não é próprio de um amor como o teu. Gratuito.

Ousaria roubar as palavras de Camões para dizer-Te que se “amar é um estar-se preso por vontade”, prende-me a Ti com os laços da tua amizade fiel, da tua alegria constante, prende-me no teu abraço que renova, na tua Palavra que conforta, no teu Olhar que desarma, no Teu silencio que fala.

Leva-me…

Confio em Ti!

Com carinho: Alice

*

Texto lindo da Licinha, que - como sempre - toca profundo com esta sensibilidade.
É do http://gizcolorido.wordpress.com/




"Amor é quando a gente mora um no outro"
Mário Quintana

*








Minha vontade é de te arrastar pra dentro de mim, porque já não suporto mais esta dor mansinha que arrasa tudo e que só você sabe curar. Tá, eu bem sei que você já mora aqui – meu coração diz isto toda vez que bate – mas eu queria você mais perto. Perto que desse pra eu ouvir seu coração batendo e sua respiração que, como sempre, compassa meus soluços. E sabe aquele abraço que só você sabe dar? Bem, é justamente dele que eu preciso, que só assim mesmo pra eu sair daqui sem me machucar ao quebrar tantas correntes. Porque só quando te sinto é que percebo que viver é muito mais.

*

Você bem que podia se mudar pra dentro de mim, não seria má idéia. Já até arrumei um lugar pra você. Limpei tudo, decorei com as mais lindas cores. Amarrei estrelas e tem sorrisos em todas as estantes. É tudo furta-cor, com você sempre me deixa. Só não me deixe.

*


Branna Lorenna

segunda-feira, 30 de novembro de 2009





Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Guimarães Rosa

domingo, 22 de novembro de 2009




Condense-me
Em teu leite condensado
Derreta-me
No seu eu amanteigado
Misture-me
Com o pó cacau melado

Então devore-me

Todo

E inteiro

Me faça brigadeiro...



by Pâm.

Para um anjo distante...

Quero mesmo é te prender num abraço eterno, que é pra ver se esta saudade infinita cria jeito e acaba logo. E no vão do teu sorriso eu vou laçar mil estrelas, colá-las uma a uma e fazer um colar pro teu coração, pra você sempre se lembrar de mim. De mim e deste coração daqui, que insiste em dizer que sente tanto tua falta. E minha vontade é trocar a foto do retrato pelo teu sorriso largo e deixá-lo lá, na estante, pra eu ter um dia melhor. Mas enquanto a distância trata de nos punir, vou eu de cá me orientando, só porque você vai daí, iluminando meu caminho com sua risada furta-cor. E te trago na alma, como um amuleto, porque é assim que o amor é.

Branna Lorenna

sábado, 21 de novembro de 2009



"E você, meu amigo galvanizado, você quer um coração. Você não sabe o quão sortudo és por não ter um. Corações nunca serão práticos enquanto não forem feitos para não se partirem..."
"Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro."

Rubem Alves


*


Milhares de coisas poderiam ter dado errado. E mesmo dando, ainda se encontraram. Porque é assim: a vida trata de nos ensinar que destino não se faz, ele o faz pra si. E fios de eternidade se enrolam pra nunca mais soltar. Eles só não sabiam que os mesmos fios os entrelaçavam desde sempre.
Ela andava assim, protegida da vida. Cabeça erguida, pele de titânio, invergável. Ele, matematizando cada milímetro de si. Aos olhos de todos, e deles mesmos, era inconcebível a ideia de tal encontro. Mas aconteceu.
Foi numa tarde. E o céu não parecia mais belo que qualquer outro dia. O universo conspirava a favor deles, só não podia deixar assim tão claro. Mas se eles tivessem reparado bem, teriam visto no sol um sorriso-de-canto-de-boca, daqueles tímidos, que escondem segredos.
Primeiro notaram a mesma nuvem, depois o mesmo sorriso-cúmplice, o mesmo olhar que se continha e, enfim, o mesmo silêncio. Depois disto não tinham mais lembrança alguma. Uma zona de silêncio os unia.
*
Que meus fios de eternidade enrolem nos teus, que é pra gente não saber mais com que pernas seguir.


Branna Lorenna

A
pele é o lado de fora do sentimento.


Do texto "Gratidão", por Ana Jácomo.
''Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.''

(Ana Jácomo)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009




Tem dias que só respirar fundo não basta. Há algo, entre a beleza e o caos, que insiste em transbordar. Vezenquando as tatuagens que trago na alma lembram mais. E relembram que a chuva vai chover e lavar tudo que foi transcrito. Vês, estas marcas na minha pele? Antes fossem tuas. Mas a gente tem que aprender. A gente tem que ensinar. E é pra isto que elas estão ai. - Disse isto e foi dormir. Como Machado, ela sempre acreditou que “dormir é um morrer interino”.
Ela bem sabia que o buraco era mais fundo. Mas omitia. Fizera isto há tanto tempo, não seria agora que desmoronaria. E por carregar nos ombros todo sentimento do mundo, desconfiava se ainda era simplesmente humana. Se já não era titânio. Corpo, alma e coração. Se ainda houvesse os três.


Branna Lorenna
01. Boneca assim de pano, ninguém quer
02. Minha dona teve pena e quase até chorou
03. Você é tão linda
04. Venha ser a minha amiga
05. A felicidade é para nós
06. Juntas pode ser
07. Um mundo cor-de-rosa onde tudo é possível
08. Vem, vamos brincar.09.Mágica no ar!!
10. Eu quero que a vida seja feita de alegria
11. Eu quero que o mundo seja um sonho de verdade
12. Voar numa nave ou numa nuvem de algodão
13. Enchendo o céu inteiro de bolinhas de sabão
14. Ainda tem remédio, é só abrir o coração.
15. O nosso planetinha é tão bom de se viver
16. Pra Gente ser feliz eu sempre conto com você
17. Eu sou pequenininha do tamanho de um botão [¬¬° er... nem taaaaanto]
18. Eu estou com meus amigos, companheiros, tudo bem.
19. A vida é uma eterna brincadeira \o/
20. Um lugar com gosto de hortelã
21. É uma riqueza ser inocente
22. Não é proibido sonhar
23. Sempre precisamos de alguém quero ir contigo
24. Só quem faz amigos pode ir bem mais além
25. Eu sou o comandante do bom humor
26. batalhão, preparar, apontar, sorrindo em frente marche
27. risque o papel
28. veja o presente e o futuro também
29. Conte comigo
30. Vem brincar nesse meu mundo encantado
31. Vamos tirar esse mundo do sério
32. Coisa boa é viver sem pensar
33. Bem-vindo a estação felicidade!

por Pâm.

domingo, 15 de novembro de 2009

Risada furta-cor

Tenho uma ideia nesta minha cachola (e é com x ou ch? ah! tanto faz...)...
Se Dona Pâm topar, este blog será tocado a 4 mãos. ^^
E só pra dar um gostinho, vejá só as randômicas dela.
Furta-cor.


*

01.é na gargalhada contagiante que eu derramo minhas lágrimas mais salgadas
02.Quanto tempo eu levo pra aprender que uma flor tem vida ao nascer?
03.Quando mentir for preciso, poder falar a verdade.
04.pensamento tão livre quanto o céu
05.Só muda o coração
06.Não é preciso apagar a luz
07.Quem vai pagar as contas deste amor pagão?
08.Melhor do que sofrer depois
09.Escolha feita, inconsciente de coração não mais roubado
10.A moça de sorriso aberto
11.Afasta-me do ego imposto
12.pois dores são incapazes e pobres desses rapazes que tentam me fazer feliz
13.A linda rosa perdeu pro cravo
14.Só que o meu coração não aceitou esse não e se pôs a sofrer
15.E o medo de toda certeza que chamam de amor
16.A vida ficou por ali me olhando por trás
17.Se transforma em calor mata o frio do teu peito e me faz viver
18.Quero viver noutro tempo que eu nem sei se virá
19.É cedo não quero dizer que foi tarde demais vendo os olhos e assim triste, infeliz, incapaz
20.a vida ficou por ali
21.No meu penoso altar particular
22.Sei lá, a tua ausência me causou o caos
23.O tempo da cura tornou a tristeza normal
24.Sem mais, a vida vai passando no vazio
25.Sai de si
26.quero um pouco mais, mas não TUDO
27.Olhe só como a noite cresce em glória
28.o que for pra ser vigora, sempre!
29.Os sonhos podem transformar o rumo da história
30.deixe estar.
31.eu sou tão feliz!
32.Sinistro parece que a gente se deu ao desfrute de nada
33.Sabe que eu te estudo sem me aproximar
34.Vi que no escuro tu também fica a chorar
35.Deus me disse pra ter paciência
36.Não me abandone, é preciso esquecer.
37.Eu te oferecerei pérolas de chuva vindas de países onde nunca chove
38.Se quer tamanho vou despir a alma e afogar a calma salivando um beijo teu
39. ...
40. fim

sábado, 14 de novembro de 2009

"Enquanto houver você do outro lado, aqui do outro eu consigo me orientar..." TM


*

Hoje eu preciso do seu abraço. Que, como um laço, me agarra tão forte e me resgata. Apenas deitar-me aqui, no silêncio da tempestade, e perceber que todas as chuvas são iguais. E ouvir seu coração bater - saber que eu ainda vivo. E sua respiração compassando meus soluços invisíveis. E, vez ou outra, deixe alguma lágrima cair, que é pra regar este chão que nos segura. Mesmo que eu não o sinta mais sob meus pés.

Branna Lorenna
O texto a seguir não é meu, mas gosto tanto dele (e de quem escreveu) que resolvi postá-lo aqui.
=)


*

Pessoas, em seus relacionamentos são imprevisíveis, me lembram até rochas e o mar. As rochas e o mar, apesar do embate ferrenho e milenar, nunca se superam. Superficialmente, as rochas são fortes e implacáveis, enquanto o mar é fraco e maleável. Por muito tempo assisti esta bela disputa. Sempre preferi as rochas pelo seu porte, imponência e obstinação.
Durante meu amadurecer ocorreu um episódio singular. Após um choque, relativamente leve, um pedaço considerável da rocha foi arrancado. Em poucos segundos percebi que meu Titã predileto caia vertiginosamente em meus conceitos, e que minha visão sobre tudo mudaria drasticamente. Sentei na areia e entrei num conflito interior desleal. Observando meus dois combatentes mais a fundo, vislumbrei aquela faixa enorme de areia e percebi que toda aquela areia tinha feito parte da rocha, antes da água separá-las.
Aproximei-me da rocha e, ao tocá-la, a senti fria e áspera. Nesse momento uma onda encobriu meus pés até os tornozelos, com a água em temperatura agradável seu movimento constante tornava relaxante o contato. Analisando melhor percebi que fora fria, a rocha também era inerte e sem vida enquanto o mar se movimentava constantemente e dentro dele havia vida em quantidade assombrosa. Admiti meu grande erro.
Depois de muito pensar passei este aprendizado paras relações pessoais. Vi que há pessoas como as rochas, duras e obstinadas, mas também existem pessoas que se assemelham ao mar, sendo agradáveis e cheias de vida. No início, sinceramente, pensei que o melhor era ser como o mar e por isso cometi meu segundo grande erro. As pessoas que agem como rochas são as mais batalhadoras e guerreiras, nunca se deixam abater, por mais que olhem à frente e vejam um oceano de problemas muito maior que elas, sempre estão de pé, se negando a desistir. Notei a grande capacidade que essas pessoas têm de sobreviver “matando um leão por dia” e após esta cruel batalha estão vivas e, mesmo muito feridas pela luta, ainda conservavam uma vontade inabalável de continuar. Vi também pessoas que se assemelham ao mar, sempre sorridentes e alegres. Essas mesmas pessoas também têm outras características em comum com o mar: Repentinas, incontroláveis e impulsivas como o mais belo espírito livre, às vezes, sem ao menos notarem, são tão cruéis quanto a pior tempestade que deixa órfão o filho do pescador.Depois de algum tempo analisando cuidadosa e repetidamente vi que não há superiores, todos nos completamos, já que se não fossem as rochas nada pararia o ímpeto do mar.
Me considero um mar bem tempestuoso e agradeço muito as rochas que me cercam e por mais que nos desentendamos vocês tem importância incondicional para mim.


A. A. S.

Balada do Amor através das Idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'

Desde tempos imemoriais...

1. Era um vez ele.
2. Era uma vez ela.
3. Milhares de coisas poderiam ter dado errado
4. E mesmo dando, os dois ainda se encontraram.
5. Pareciam ser os mesmos
6. E viviam discutindo por serem diferentes.
7. Se amaram desde a primeira briga
8. E por isto não paravam de brigar mais.
9. Se viam todo dia.
10. Trocavam insultos, sorrisos, olhares cúmplices
11. Se entendiam de todas as formas.
12. Despertavam inveja por serem assim.
13. Eles mesmo se invejavam.
14. Não se podia dizer quem era mais cabeça-dura
15. Nem quem era mais dono da razão
16. Riam das próprias desgraça juntos
17. E sofriam mais com a desgraça um do outro do que com as de si mesmo.
18. Sabiam de tudo, mesmo que não dissessem.
19. Certa vez apareceu o tal vilão da história.
20. Ele ameaçava os separar por tanto tempo.
21. Nem adiantou.
22. Querendo ou não lá estava os dois juntos.
23. Eles mesmo não entendiam porque não se separavam.
24. E nem o que sentiam um pelo outro.
25. Um dia ele desvendou o mistério
26. Mas foi obrigado a guardar tudo num canto escuro do coração só pra continuar a viver a amizade.
27. Ela sempre disse que seria impossível algo mais.
28. E ela sempre quebrava a cara.
29. Ela tentou se convencer do contrário
30. Tentou guardar tudo numa caixinha
31. Guardou.
32. E eles ainda viviam felizes todos os dias.
33. Fugiam da vida pra ir pra qualquer fim-de-mundo ficar em silêncio por horas.
34. É que o silêncio dos dois sempre gritava mais do que as palavras.
35. Um dia o silêncio não se conteve mais.
36. Saiu gritando pelos quatro cantos a verdade tão temida
37. Neste dia, segundo ele, os olhos dela brilharam com o brilho mais intenso que ele já viu.
38. E o coração dele, segundo ela, batia como uma escola de samba.
39. Enfim os dois juntos.
40. Quando os outros souberam disto fizeram festa.
41. Pelos outros, eles já estariam casados e com 4 filhos.
42. Mas sempre tem vilões.
43. E não podia ser diferente.
44. Ela os temia tanto que nem ousava contar pra ele.
45. Mas também nem precisava. Ele sempre a lia.
46. Ele disse que não eram gigantes, eram moinhos de vento.
47. Ela se acalmou.
48. Às vezes ela ainda ressuscita os gigantes
49. Mas basta a mão dele tocar na dela que ela volta a si.
50. Hoje ela descobriu que sempre haverá algum gigante
51. Ela chorou por isto.
52. Ele ouviu, a kms de distância, a lágrima dela tocando o chão.
53. Então lhe contou um segredo:
54. " ..."
55. De novo quem falava era o silêncio.
56. E foi quando ela viu nos olhos dele brotar uma lágrima teimosa.
57. Ele, pedra, que se continha, via agora uma gota de vida descendo pelo próprio rosto.
58. Foi aí que ela percebeu que tudo é mais antigo do que ela sequer imaginava
59. Ele já tinha sido grego, ela troiana; ele soldado romano e ela cristã...
60. E se se amavam "desde tempos imemoriais", não seria agora que a história acabaria... 



Branna Lorenna

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Tá que todo mundo bem sabe da minha paixão por este texto, mas não custa nada plantá-lo aqui também.
Deliciem-se.
E como diz a Licinha: "Cores a vocês!".
.*.*.



Das vantagens de ser bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando”.
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram desair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.
Resultado: não funciona.
Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.
Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás,não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdempor não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector



Tamanho da fonte
bilhetes I

Quando você se sentir sozinho pegue o seu lápis e escreva: no degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

Rita Apoena


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dos meus plágios preferidos...

Peço licença à Mih. Não resisti e tive que postar aqui umas randômicas dela com uns trechos lindos. =)

.*. "Porque fé, quando não se tem, se inventa... para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal... Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem... sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma — sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões... envia teu Sol mais luminoso..." (Caio Fernando Abreu)

.*. "Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'. Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como 'estou contente outra vez'." (Caio Fernando Abreu)

.*. "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." (Friedrich Nietzsche)

.*. "Afinal, a afeição que nutro por você é um fato." (Caio Fernando Abreu)

.*. "Se você não demorar muito, posso esperá-la por toda a minha vida." (Oscar Wilde)

.*. "Nos outros eu sei onde se abriga o coracão, é no peito; em mim a anatomia ficou toda louca, eu sou todo coracão." (Maiakovski)

.*. "Entre ela e Eduardo o ar tinha gosto de sábado." (Clarice Lispector)

.*. "Como bailarina de circo, uma das pernas equilibrada no fio do arame, a outra alongada no ar, as mãos inesperadamente donas do poder de iluminar as coisas, as pessoas. Não sei precisar o momento em que o fio tremeu, abalando meu corpo inteiro, e o poder fugiu. De repente precisei me movimentar mais rápido, para não cair no espaço vazio sem rede, me arrebentando sobre os cacos coloridos espalhados no chão." (Caio F. Abreu)

.*. "Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você..." (Caio Fernando Abreu)


...*...
Engraçado tanto Caio F., neh!? Tudinho culpa da Mih. Me viciou! =)

Furta-cor

"... Sua alma era furta-cor"
(Mario Quintana)

..*..

Como diria Rubem Alves - "Todo jardim começa com uma história de amor". Com ela não haveria de ser diferente. Aquilo não passava de um lote baldio, repleto de entulhos. Lixos antigos, passado sempre presente. Ela era capaz de se perder ali por horas; arrancava uma erva-daninha aqui, abria caminho ali... Arrastava os meses e no fim sempre concluia o mesmo: "Isto não tem solução". Só não entendia porquê. Aquilo era o caos e mesmo assim a atraia tanto e tanto. Não havia flores, a vida se restringia aos poucos insetos que atreviam a se instalar lá. Mal sabia ela que onde há terra, há vida. Uma vida pulsante, gritando pra viver. Esperando só a chuva refrescar os ares e trazer de volta os beija-flores.
E foi assim, num temporal, que o caos apareceu brilhantemente radiante. Impossível sobrar vida depois daquele vendaval, nada restaria, ela tinha plena convicção disto. E mais uma vez a natureza tratava de enganá-la. Esta mãe que gosta de nos pregar peças. Repare só: Tem noites tão escuras que achamos impossível que o brilho do sol vença tanta escuridão. E no entanto, lá vem o astro brilhante, trazendo o dia mais iluminado que poderíamos imaginar.
Naquele dia o sol despejara toda sua glória sobre seu quarto-de-despejo. A chuva, recém-caída, ainda escorria sobre seu rosto. Aquele cheiro de terra molhada, de vida nova. Ela reconheceria este aroma em qualquer lugar, mesmo nunca o tendo sentido. Invadia-lhe a pele, o sentido, cravava-lhe a alma. E dos olhos - ah! os olhos... - dele escorriam gotas multicoloridas, que ao tocar o chão brotavam flores translúcidas. Não sabia que cores eram aquelas. Furta-cor. Era assim que sua alma enfim se sentia.


Branna Lorenna