domingo, 19 de dezembro de 2010

Ausência



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade
A Verdade



A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 18 de dezembro de 2010

No momento em que eu menos tinha fé, Deus te colocou na minha vida, e foi como se tudo voltasse a florescer coisas boas. Foi esperança brotando pra tudo quanto é canto.
Você é, com certeza, meu maior presente. Já nem me atrevo a pedir muitas coisas a Deus, acho mesmo que agora devo estar devendo a Ele.

Branna Lorenna

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cata as tristezas esparramadas no tapete da sala e as devolve ao céu, em forma de estrelas. Ela pisca e vê uma estrela. Ela pisca e vê um vaso de flores. Cada piscada é uma flagrada de um universo bonito. Porque ela sabe é por beleza nas coisas.


Cris Carvalho
E aprendi que se depende sempre

De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar

É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração


Caminhos do Coração - Gonzaguinha

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Guimarães Rosa
'Amar não é verbo; é luz lembrada.'

Guimarães Rosa
Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei

E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar

Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar
O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar

Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar

Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!


Rodrigo Amarante - Evaporar


domingo, 21 de novembro de 2010

A amizade


Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...

Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo que já sentira antes. O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira.

A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.

"Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava 'Tenho um amigo, tenho um amigo!' Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu assim que se deitou. Mas durante a noite fora acordado duas ou três vezes, como que por uma idéia fixa. Repetia para si mesmo: 'Tenho um amigo', e tornava a adormecer."

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é sua amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou transar. Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminando o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio - que são insuportáveis. Nesse momento o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade.

Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria, independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.

Uma estória oriental conta de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia será transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores das essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo, sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.


Rubem Alves

(do livro 'O retorno e Terno')


**
Para Pâm e Vini.

sábado, 20 de novembro de 2010

Vento

O diabo é adulto vestido sempre a rigor. É sério. Não ri. Não sabe dançar. É o espírito de gravidade que faz todas as coisas afundar. Deus é contrário: criança de mãos dadas com um palhaço de circo. A oração começa com o riso. Deus é o espírito de leveza. Vento. Espírito. Ele faz todas as coisas voar.


Rubem Alves
Imagem by Jose Villa - http://josevillablog.com/
Música do Corpo

O corpo é como a flauta, o órgão, o violão, o violino - coisa que só fica bonita quando dele sai música. Amamos um corpo pela música que nos faz ouvir.


Rubem Alves

Tiririca

A "Desiderata" - um texto sapiencial - diz que o amor "renasce tão teimosamente quanto a tiririca". Tiririca, você sabe, é praga de jardim. Quando uma tiririca aparece, ojardim está perdido. Não adianta arrancar. Ela vai aparecer em outro lugar. Assim é o amor.


Rubem Alves

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

 O Girassol

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel

Roda, roda, roda
Carrossel
Roda, roda, roda
Rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel

Roda, roda, roda
Carrossel
Gira, gira, gira
Girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol


Vinicius de Moraes

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...


Vinicius de Moraes

sábado, 13 de novembro de 2010


Sobre todos aqueles que ainda continuam tentando, Deus, derrama teu sol mais luminoso.

Caio F
Hoje as dores são demais para nós, sonhadores, que tivemos nossos sonhos amputados. Sonhos encardidos com a força do tempo. Tento olhar para trás e me imaginar criança com os olhos de agora. Tanta inocência, tanto afeto que abraçava com as duas mãos. Agora, um baú de esgotamento, que luta todo santo dia pra manter a chama acesa, bem dentro, bem forte.

Às vezes, um punhado de horas por dia, me bate no peito a voz da desistência, que me ameaça com a cara mais pálida que há no mundo, me dizendo coisas absurdas, mas que me são tão mais fáceis e acessíveis. - Desista - ela diz. Às vezes eu retruco, brigo com ela. Outras tantas, sou eu quem chora baixinho.

Nó no peito, sorriso apertado, o tempo passando feito um monte de areia escorrendo na palma da mão e, você estancado, em cima do muro, com medo de dar o passo. Aí se olha pra trás e vê o quanto a caminhada foi longa e as dores maiores ainda. A voz da desilusão insiste em atravancar o caminho. Estende um copo de dúvidas nas nossa frente.

Mas como nesse terreno da vida o que vale é o que a gente planta nele, do nada, surge uma penca de girassóis e aponta um céu. Um céu de escolhas felizes e tão mais claras. Esses girassóis costumam chegar quando você menos espera. Mas você sabe o momento em que eles chegam pelo cheiro de carinho no ar. Cheiro de abraço de amigo, colo de mãe. Cheiro de bolo saindo do forno e passeio de domingo no parque.

É nessas horas que você percebe que Deus não desiste nunca. E que Ele sempre prepara surpresas risonhas pros nossos caminhos. Mas pra você recebê-las terá de ter um coração aberto e tranquilo. Por isso, quando chegar a hora de dormir, não esqueça de acender a vela da fé, aquela que mora no coração e que acende a alma. A única vela que nos mostra o rumo.


Cris Carvalho


**
Obrigada Mari ^^

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

1 aninho...

Hoje este cantinho faz um ano.
Me lembro como se fosse hoje, agora, neste exato momento.
Eu, toda boba, transbordando amor e muitas ideias. Num momento de puro devaneio me deparei com uma frase dum dos escritores mais queridos, Rubem Alves : "Todo jardim começa com uma história de amor".  Era isto! O amor me florescia, porquê não aproveitar e plantar um jardim? Assim nasceu o Jardim, mas ainda não era Furta-Cor. O furta-cor só veio com Quintana: "Sua alma era furta-cor". E tem coisa mais bonita que furta-cor? Que nem aquelas lantejoulas antigas que a vó guardava num potinho...
Pronto! Estava plantado... e florescia tão rápido, numa força, numa beleza de encher os olhos! Mas tudo isto devo aos jardineiros daqui, sempre presentes, dispostos, cheios de sorrisos. Eles é que me ensinaram a cuidar bem das flores, ensinaram que com sorrisos e conversas as flores crescem mais rápido e outros segredinhos...
Só tenho a agradecer a todos que passaram e passam por aqui. Àqueles que pousam rapidamente, feito borboleta; àqueles já plantados aqui, com raízes fundas... Todos vocês estão no meu coração e fazem parte da minha história. Obrigada!

*****
Pra relembrar, repostagem:

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Furta-cor

"... Sua alma era furta-cor"
(Mario Quintana)

..*..


Como diria Rubem Alves - "Todo jardim começa com uma história de amor". Com ela não haveria de ser diferente. Aquilo não passava de um lote baldio, repleto de entulhos. Lixos antigos, passado sempre presente. Ela era capaz de se perder ali por horas; arrancava uma erva-daninha aqui, abria caminho ali... Arrastava os meses e no fim sempre concluia o mesmo: "Isto não tem solução". Só não entendia porquê. Aquilo era o caos e mesmo assim a atraia tanto e tanto. Não havia flores, a vida se restringia aos poucos insetos que atreviam a se instalar lá. Mal sabia ela que onde há terra, há vida. Uma vida pulsante, gritando pra viver. Esperando só a chuva refrescar os ares e trazer de volta os beija-flores.

E foi assim, num temporal, que o caos apareceu brilhantemente radiante. Impossível sobrar vida depois daquele vendaval, nada restaria, ela tinha plena convicção disto. E mais uma vez a natureza tratava de enganá-la. Esta mãe que gosta de nos pregar peças. Repare só: Tem noites tão escuras que achamos impossível que o brilho do sol vença tanta escuridão. E no entanto, lá vem o astro brilhante, trazendo o dia mais iluminado que poderíamos imaginar.

Naquele dia o sol despejara toda sua glória sobre seu quarto-de-despejo. A chuva, recém-caída, ainda escorria sobre seu rosto. Aquele cheiro de terra molhada, de vida nova. Ela reconheceria este aroma em qualquer lugar, mesmo nunca o tendo sentido. Invadia-lhe a pele, o sentido, cravava-lhe a alma. E dos olhos - ah! os olhos... - dele escorriam gotas multicoloridas, que ao tocar o chão brotavam flores translúcidas. Não sabia que cores eram aquelas. Furta-cor. Era assim que sua alma enfim se sentia.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010







"Porque quem ama vê miudezas com olhar suficiente para nunca mais se perderem..."

sábado, 6 de novembro de 2010

Preciso de impulso.
Que seja pra me jogar no abismo ou me atirar num vôo aos céus.
É necessário sair do lugar.
Respirar outros ares.
Tentar recomeçar.

Branna Lorenna

sexta-feira, 29 de outubro de 2010


"...ou talvez eu só precise de férias, de um porre e de um novo amor "

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


''Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido,
em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando...
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço! ''

 
(Desconheço o autor)

sábado, 23 de outubro de 2010

rio do mistério
          que seria de mim
                  se me levassem a sério?

Paulo Leminski

“Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca”

Dom Quixote, personagem de Miguel de Cervantes y Saavedra

"Crisântemos e camélias,
Flores de toda espécie
Convergem em ti, Ofélia
Doces e quase sem pressa

Lírios, rosas, alliums,
Tulipas e flores-idéias
Liras, trovas, átimos
Castos (sem crimidéias)

E eu penso: "tamanha pureza
Não deve de ser mensurável...
Só resta, enfim, a certeza
Que és bela e de todo amável"

Seu olhar insuspeito (e desconfiado…)
Rarefeito, flagrado só por mim

Guarda a verdade sobre ti
Que sorri… Sempre sorri…"


poema de um amigo,dedicado a mim *modestia a parte toda convencida*
Cavi Page!
de todo coração Muito obrigada!

terça-feira, 12 de outubro de 2010


“O máximo de maturidade que um homem pode atingir é quando ele tem a seriedade que têm as crianças quando brincam

Nietzsche
.

"Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças"


Fernando Pessoa, Obra Poética 189

quarta-feira, 6 de outubro de 2010


Mas quem é que sabe como? Viver... o senhor já sabe: viver é etcétera...

Guimarães Rosa
"É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco, é um encontro.''


Clarice Lispector



terça-feira, 5 de outubro de 2010

Politicagem 2


Nicolas Boileau (1636-1711) foi um crítico e poeta francês.

“Um tolo sempre acha um mais tolo para admirá-lo.” Nicolas Boileau

No caso de Tiririca foram um milhão, trezentos e cinquenta mil, quatrocentos e trinta e oito. Tolinhos.



Via: http://frasesilustradas.wordpress.com/
Visitem!!! Muito bom!




sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Algumas preciosidades morrem baixinho, em gra. Como morrem as tardes. Como morrem as flores. Como morrem as ondas. Quando a gente percebe, já é noite e o céu, se está disposto a falar, diz estrelas. Quando a gente percebe, as pétalas já descansam o seu sorriso no colo do chão. Quando a gente percebe, o canto da onda já enterneceu a areia. Muitas dádivas que nos encontram, que nos encantam, têm seu tempo de viço, sua hora de recado, e seu momento de transformação em outro jeito de lindeza.

A noite também é bela do jeito dela. As pétalas caídas viram húmus para fertilizar o solo que dirá a vez de outras flores sorrirem. A areia molhada conta a canção da onda e da sua acolhida terna para a nossa vida descalça. Lutar contra a impermanência da cara das coisas é feito tentar prender o azul macio das tardes, segurar o viço risonho das flores, amordaçar as ondas. É inútil.

Costumamos esquecer que não podemos impedir a mudança: tudo dança a coreografia sábia e implacável da impermanência. Mas a música daquilo que verdadeiramente nos toca com amor, não importa o quanto tudo mude - e tudo muda -, não deixa nunca mais de tocar e viver, de algum jeito, no nosso coração.



Ana Jácomo


**
Presente da Maribela ^^
Se me esqueceres, só uma coisa:
Esquece-me bem devagarinho...



Mário Quintana

segunda-feira, 27 de setembro de 2010


Eu encontrei quando não quis
Mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
Antes um mês e eu já não sei

E até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena

Ah vai!
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
Afim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei e quis duvidar
Tanto clichê deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
Ter e ver coragem no amor

E só de te ver eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar

Ah vai, me diz o que é o sossego
Que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar


Rodrigo Amarante



sábado, 25 de setembro de 2010

"A madeira da qual Pinóquio foi esculpido é a própria humanidade."

Benedetto Croce

domingo, 19 de setembro de 2010

Vermelho abaixo
Vagaroso, acho
Que a dor é assim,
Dessa cor
Do rubor, da raiva
Mas no fim de tudo
Poesia é só palavra.
O que eu sinto mesmo
Ou o que diz que sente
Ou que pode sentir
Fica quietinho,
Mudo, parado.
Tentando inexistir.
Se não é de palavra
Que essa dor é feita
Melhor que assim não ouço
E a vida então se ajeita
Nem sequer falar eu deveria
Então eu finjo que não disse
Você finge que não leu
Ela finge que já foi
Ou que nunca apareceu.


Débora Paixão, do http://tudoqueficanoar.blogspot.com/
Faz de contas que a sua alma é um útero. Ela está grávida. Dentro dela há um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer é o seu sonho. Quem engravidou a sua alma eu não sei. Acho que foi um ser de um outro mundo... Imagino que o tal de “Big-Bang“ a que se referem os astrônomos foi Deus ejaculando seu grande sonho e soltando pelo vazio milhões, bilhões, trilhões de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um Paraíso... Assim, sua alma está grávida com o sonho fundamental de Deus...


Mas toda semente quer brotar, todo feto quer nascer, todo sonho quer se realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados, se transformam em demônios dentro da alma. E ficam a nos atormentar. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações - vez por outra elas tomam conta de você – aposto que são o sonho de jardim que está dentro e não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins...
 
 
Rubem Alves

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz

Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida


Beatriz  by Edu Lobo e Chico Buarque

domingo, 12 de setembro de 2010



Somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
Your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose
Or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
Nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


E. E. Cummings - Somewhere I have never travelled, gladly beyond

**
Tradução para o português feita por Augusto de Campos

sábado, 11 de setembro de 2010

Black Pixel Project



Atualmente qualquer iniciativa para minimizar o impacto das emissões de CO2 é válida.
No Black Pixel Project, o esforço tem o tamanho de alguns pixels.
Ao instalar um pequeno quadrado negro no monitor*, as pessoas estarão economizando energia. E essa energia, somada a energia dos Black Pixels de outras pessoas pode fazer uma grande diferença.

* Este projeto é válido para monitores de tubo ou plasma.

Acesse: http://www.greenpeaceblackpixel.org/#/pt e saiba mais!

''... É sol que agora nasce onde antes era chuva.
E um arco íris como um aviso do céu:
É proibido não ter esperanças, só porque é setembro."


Cris Carvalho

**
Presente da Maribela ^^

quinta-feira, 9 de setembro de 2010


"Sobre tudo o que se deve guardar,
guarda o teu coração,
porque dele procedem as fontes da vida."


Prov. 4:23

O arco-íris




tem pessoas que lembram cores

e cores q lembram pessoas

e quando a ordem nao importa

as pessoas viram arco iris...


ps.:feito pra tanta gente que eu nao consigo dedicar

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Happy Birthday

Nuvem nada

Um dia essa nuvem deságua.
Um dia volta ao seu lugar.
A chuva é o retorno d'água
que cansou de evaporar...
O tempo está fechado,
mas eu decidi me abrir.
Só chuvas insistentes
é que gostam de cair...

Débora Paixão
 
**
Hoje um dos meus blogs preferidos 'faz anos', como diria vovó.
Pra quem ainda não o conhece, vale a pena seguir: http://tudoqueficanoar.blogspot.com/

Parabéeens, Paixão!

FELICIDADES!


Tem gente que nao sabe o que é um bonsai!
eu além de saber sou amiga de um!
um bonsai lindo,colorido,florido e cheio de amor!
vocês a conhece porque ela idealizou esse blog!
e hoje é um dia de festa para meu pequeno bonsai!
hoje completa mais um ano que Deus nos concedeu a honra de podermos admirar esse bonsaizinho aqui na terra,bem de perto e de desfrutarmos da sombra boa que ele faz para podermos descansarmos e essa sombra boa e esse blog tao lindo!
Branninha feliz aniversario!
continue sempre florida
e florescendo para nos!
te amo
te amamos!
eu digo em meu nome e em nome de todos
"No dia do meu aniversário os números vão mudar, como mudam no rodômetro, aquele aparelhinho no painel do carro que marca a quilometragem. Está lá “67“ e aí, de repente, o “7“ dá um pulo e o “8“ aparece no seu lugar. Esse é um jeito de marcar o tempo, contando os números.
Jeito bobo. Os números não dizem nada. Há um verso sagrado que diz: "Ensina-me a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios". Muita gente envelhece sem ficar sábio. O que é um sábio? Sábio não é quem sabe muito. Sábio é quem come a vida como se ela fosse um fruto saboroso. O sábio presta atenção nos prazeres e alegrias de cada momento. E o que dá prazer e alegria não são coisas grandes, festas com bolo, bexigas e presentes. O que dá alegria são coisas pequenas. Por exemplo: brincar com um cachorrinho. Balançar num balanço. Andar na água fria de um riachinho. Ver um ipê florido. Ler um livro. Armar um quebra-cabeças. Ver fotografias antigas."

Rubem Alves

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


Que eu nunca me esqueça de como voar.
Voar com as forças do bem ...
voar com as belezas de dentro.

Cris Carvalho


**
Obrigada, Maribela, por me ajudar a cuidar do jardim! ^^ Bjoooo!

domingo, 29 de agosto de 2010

"Não é que pensei outra coisa de gente grande? Esta é assim: tudo que parece meio bobo é sempre muito bonito, porque não tem complicação. Coisa simples é lindo. E existe muito pouco.

Caio F.
"Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias."

Caio F.

domingo, 22 de agosto de 2010

Uma pipa é mais
   do que linha e papel,
          cola, rabiola, cerol,
                                uma pipa
                            é ao mesmo tempo
                                        dança e vento
                                            redemoinho feito
                                                   com pedaços de céu,
                                                                            é o vôo
                                                              de quem não tem asas,
                                                                     é a casa alada
                                                               de cada menino
                                                   é o jeito mais simples
                                      de virar estrela cadente.


Roseana Murray

terça-feira, 10 de agosto de 2010


Aí, de repente, os meus olhos se abriram, e vi como nunca havia visto. Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro de jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores de outrono, o banho de cachoeira, mãos que se seguram, o abraço do filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse pra mim mesmo: "Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida".


Rubem Alves in Do Universo à Jabuticaba

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vícios, Vinicius...

"Se eu tivesse, se eu tivesse muitos vícios,
O meu nome era Vinicius
Se esses vícios fossem muito imorais
Eu seria o Vinicius de Moraes".
 
 
José Carlos Oliveira