sábado, 31 de julho de 2010

"Tem uma passagem estreita dentro de mim,
tão estreita que suas paredes me lenham toda,
mas essa passagem desemboca na largura de Deus.
Nem sempre tenho força para atravessar
este deserto sangrento, mesmo sabendo que,
se me forçar a me doer todo entre as paredes,
mesmo sabendo que desembocarei para a luz aberta
de uma dia trêmulo de sol macio..."



Clarice Lispector

quinta-feira, 29 de julho de 2010


Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.

Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

(...)


Nuvens me cruzam de arribação.
Tenho uma dor de concha extraviada.
Uma dor de pedaços que não voltam.
Eu sou muitas pessoas destroçadas.

(...)


(ele) é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.

(...)


(... consegue esticar o horizonte usando 3 fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
... desregula a natureza: Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?).

(...)


Estou atravessando um período de árvore.



Manoel de Barros

terça-feira, 27 de julho de 2010



"E se for pra semear a esperança num jardim
E se for pra desculpar uma criança eu digo sim
E se for pra perdoar não tenho escolha
Também sou pecador, também preciso de perdão"

quinta-feira, 15 de julho de 2010


Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.
Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.
Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.
Não...
Amor é um exagero...
Também não.
Um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tem explicação, esse negócio de amor não sei explicar.


Adriana Falcão

domingo, 11 de julho de 2010

Novo ensaio sobre a dor


já achei que injeção
fosse a dor maior do mundo.
depois um beliscão,
um chute no saco,
um fora da menina do colégio
que não entendia
que tudo o que eu queria
era um amor bem dolorido.
nenhuma dor tem sucesso
na missão de ser a maior
na análise dos sentidos.


já achei que doer sem deus
fosse amputar sem anestesia.
mas doemos sem amigos.
doemos sem irmã.
doemos sem pai.
doemos sem mãe.
doemos com a sobra,
vazia.
deixemos o amor doer.
deixemos.
para que ele continue grande
para o resto de nossos dias.


scapin


http://octavioscapin.blogspot.com/

terça-feira, 6 de julho de 2010


Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.

Adélia Prado

" Amar: Fechei os olhos para não te ver
E a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...

O amor é quando a gente mora um no outro."

Mário Quintana

segunda-feira, 5 de julho de 2010


"Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar."
Rubem Alves
"A primavera chegará,
mesmo que ninguém mais saiba seu nome,
nem acredite no calendário,
nem possua jardim para recebê-la."

Cecília Meireles