quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Guimarães Rosa
'Amar não é verbo; é luz lembrada.'

Guimarães Rosa
Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei

E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar

Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar
O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar

Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar

Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!


Rodrigo Amarante - Evaporar


domingo, 21 de novembro de 2010

A amizade


Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...

Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo que já sentira antes. O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira.

A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.

"Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava 'Tenho um amigo, tenho um amigo!' Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu assim que se deitou. Mas durante a noite fora acordado duas ou três vezes, como que por uma idéia fixa. Repetia para si mesmo: 'Tenho um amigo', e tornava a adormecer."

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é sua amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou transar. Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminando o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio - que são insuportáveis. Nesse momento o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade.

Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria, independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.

Uma estória oriental conta de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia será transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores das essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo, sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.


Rubem Alves

(do livro 'O retorno e Terno')


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Para Pâm e Vini.

sábado, 20 de novembro de 2010

Vento

O diabo é adulto vestido sempre a rigor. É sério. Não ri. Não sabe dançar. É o espírito de gravidade que faz todas as coisas afundar. Deus é contrário: criança de mãos dadas com um palhaço de circo. A oração começa com o riso. Deus é o espírito de leveza. Vento. Espírito. Ele faz todas as coisas voar.


Rubem Alves
Imagem by Jose Villa - http://josevillablog.com/
Música do Corpo

O corpo é como a flauta, o órgão, o violão, o violino - coisa que só fica bonita quando dele sai música. Amamos um corpo pela música que nos faz ouvir.


Rubem Alves

Tiririca

A "Desiderata" - um texto sapiencial - diz que o amor "renasce tão teimosamente quanto a tiririca". Tiririca, você sabe, é praga de jardim. Quando uma tiririca aparece, ojardim está perdido. Não adianta arrancar. Ela vai aparecer em outro lugar. Assim é o amor.


Rubem Alves

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

 O Girassol

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel

Roda, roda, roda
Carrossel
Roda, roda, roda
Rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel

Roda, roda, roda
Carrossel
Gira, gira, gira
Girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol


Vinicius de Moraes

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...


Vinicius de Moraes

sábado, 13 de novembro de 2010


Sobre todos aqueles que ainda continuam tentando, Deus, derrama teu sol mais luminoso.

Caio F
Hoje as dores são demais para nós, sonhadores, que tivemos nossos sonhos amputados. Sonhos encardidos com a força do tempo. Tento olhar para trás e me imaginar criança com os olhos de agora. Tanta inocência, tanto afeto que abraçava com as duas mãos. Agora, um baú de esgotamento, que luta todo santo dia pra manter a chama acesa, bem dentro, bem forte.

Às vezes, um punhado de horas por dia, me bate no peito a voz da desistência, que me ameaça com a cara mais pálida que há no mundo, me dizendo coisas absurdas, mas que me são tão mais fáceis e acessíveis. - Desista - ela diz. Às vezes eu retruco, brigo com ela. Outras tantas, sou eu quem chora baixinho.

Nó no peito, sorriso apertado, o tempo passando feito um monte de areia escorrendo na palma da mão e, você estancado, em cima do muro, com medo de dar o passo. Aí se olha pra trás e vê o quanto a caminhada foi longa e as dores maiores ainda. A voz da desilusão insiste em atravancar o caminho. Estende um copo de dúvidas nas nossa frente.

Mas como nesse terreno da vida o que vale é o que a gente planta nele, do nada, surge uma penca de girassóis e aponta um céu. Um céu de escolhas felizes e tão mais claras. Esses girassóis costumam chegar quando você menos espera. Mas você sabe o momento em que eles chegam pelo cheiro de carinho no ar. Cheiro de abraço de amigo, colo de mãe. Cheiro de bolo saindo do forno e passeio de domingo no parque.

É nessas horas que você percebe que Deus não desiste nunca. E que Ele sempre prepara surpresas risonhas pros nossos caminhos. Mas pra você recebê-las terá de ter um coração aberto e tranquilo. Por isso, quando chegar a hora de dormir, não esqueça de acender a vela da fé, aquela que mora no coração e que acende a alma. A única vela que nos mostra o rumo.


Cris Carvalho


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Obrigada Mari ^^

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

1 aninho...

Hoje este cantinho faz um ano.
Me lembro como se fosse hoje, agora, neste exato momento.
Eu, toda boba, transbordando amor e muitas ideias. Num momento de puro devaneio me deparei com uma frase dum dos escritores mais queridos, Rubem Alves : "Todo jardim começa com uma história de amor".  Era isto! O amor me florescia, porquê não aproveitar e plantar um jardim? Assim nasceu o Jardim, mas ainda não era Furta-Cor. O furta-cor só veio com Quintana: "Sua alma era furta-cor". E tem coisa mais bonita que furta-cor? Que nem aquelas lantejoulas antigas que a vó guardava num potinho...
Pronto! Estava plantado... e florescia tão rápido, numa força, numa beleza de encher os olhos! Mas tudo isto devo aos jardineiros daqui, sempre presentes, dispostos, cheios de sorrisos. Eles é que me ensinaram a cuidar bem das flores, ensinaram que com sorrisos e conversas as flores crescem mais rápido e outros segredinhos...
Só tenho a agradecer a todos que passaram e passam por aqui. Àqueles que pousam rapidamente, feito borboleta; àqueles já plantados aqui, com raízes fundas... Todos vocês estão no meu coração e fazem parte da minha história. Obrigada!

*****
Pra relembrar, repostagem:

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Furta-cor

"... Sua alma era furta-cor"
(Mario Quintana)

..*..


Como diria Rubem Alves - "Todo jardim começa com uma história de amor". Com ela não haveria de ser diferente. Aquilo não passava de um lote baldio, repleto de entulhos. Lixos antigos, passado sempre presente. Ela era capaz de se perder ali por horas; arrancava uma erva-daninha aqui, abria caminho ali... Arrastava os meses e no fim sempre concluia o mesmo: "Isto não tem solução". Só não entendia porquê. Aquilo era o caos e mesmo assim a atraia tanto e tanto. Não havia flores, a vida se restringia aos poucos insetos que atreviam a se instalar lá. Mal sabia ela que onde há terra, há vida. Uma vida pulsante, gritando pra viver. Esperando só a chuva refrescar os ares e trazer de volta os beija-flores.

E foi assim, num temporal, que o caos apareceu brilhantemente radiante. Impossível sobrar vida depois daquele vendaval, nada restaria, ela tinha plena convicção disto. E mais uma vez a natureza tratava de enganá-la. Esta mãe que gosta de nos pregar peças. Repare só: Tem noites tão escuras que achamos impossível que o brilho do sol vença tanta escuridão. E no entanto, lá vem o astro brilhante, trazendo o dia mais iluminado que poderíamos imaginar.

Naquele dia o sol despejara toda sua glória sobre seu quarto-de-despejo. A chuva, recém-caída, ainda escorria sobre seu rosto. Aquele cheiro de terra molhada, de vida nova. Ela reconheceria este aroma em qualquer lugar, mesmo nunca o tendo sentido. Invadia-lhe a pele, o sentido, cravava-lhe a alma. E dos olhos - ah! os olhos... - dele escorriam gotas multicoloridas, que ao tocar o chão brotavam flores translúcidas. Não sabia que cores eram aquelas. Furta-cor. Era assim que sua alma enfim se sentia.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010







"Porque quem ama vê miudezas com olhar suficiente para nunca mais se perderem..."

sábado, 6 de novembro de 2010

Preciso de impulso.
Que seja pra me jogar no abismo ou me atirar num vôo aos céus.
É necessário sair do lugar.
Respirar outros ares.
Tentar recomeçar.

Branna Lorenna