quinta-feira, 31 de março de 2011

Dual

Então me digas
Quem vai te ajudar
Quando à noite
Começar a chorar,

Quando a graça
Não puder mais achar
E o caminho de casa
Precisar encontrar

Diga quem mais
Poderá suportar
Feridas constantes
No mesmo lugar

Diga quem mais
Vai te escutar
Te dar um conselho
E te abraçar

Posso não entender
Só posso escutar
Me jogar no teu mar
Não sabendo nadar

Mas vou com coragem
E vou procurar
Uma forma sincera
De te ajudar

Ainda que eu me afogue
Ainda que eu me perca
Encontre no seu mar
Algo que me esmoreça

O importante é estar contigo
O que importa é te ajudar
Dividir em ombros fracos
O que te impede de nadar


Thiago Almeida, O Filho do Vento 


Morrendo

"Dormir é um modo interino de morrer."

Machado de Assis

 *

Tomara que eu morra tristeza hoje, pra ver se amanhã nasço fé.

quarta-feira, 30 de março de 2011

''Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando, pela boca, cantando, pelas pernas, tremendo, pelas mãos, suando. (Só pelo umbigo é que não saía: o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado).
O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando o amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe, tinha mais quinze meninos. Na escola, trezentos. No mundo, vai saber, uns dois bilhões? Como é que ia acontecer de a menina se apaixonar justo por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como: nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu então congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura -- só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas de Star Fix por onde pisava.
O que é que eu faço? -- perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e a um pessoalzinho que passava a vida sentado em frente ao posto de gasolina. Fala pra ela! -- diziam todos, sem pensar duas vezes, mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha pra dar? Ele ia murchar que nem uva passa, explodir como bexiga e chorar até 31 de dezembro de 2978.
Tomou então a decisão: iria atirar seu amor ao mar. Um polvo que se agarrasse a ele -- se tem oito braços para os abraços, por que não quatro corações, para as suas paixões? Ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e o maior sentimento do mundo.
Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia era que seu amor era maior do que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor.
Até que sentiu uma gota na ponta do nariz. Depois outra, na orelha e mais outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava. E assim que a água tocou sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois já fazia meses que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já nem cabia dentro dela.''

 
Antônio Prata

segunda-feira, 28 de março de 2011

todo mundo é um mundo (dois)


carlos é empresário e instrutor de pole dance. bárbara acha que sua cachorrinha é gente mas não gosta de araras coloridas. alberto ainda se sustenta jogando futebol de botão e escreve poemas sobre a vida. pedro é um arquiteto dantesco e pega moças com sardas e vozes estridentes. edu ainda guarda a gravação dos 15 minutos de silêncio pela morte de john lennon. ele a ouve diariamente. emiliana não sai de casa sem alimentar seus dezenove quatis venezuelanos e por isso abre mão da sua hora de almoço. jorge está há cinco anos procurando uma fêmea pra cruzar com seu bulldog inglês e desde então está solteiro. olavo dá descarga antes de acabar o xixi. camila não é mais viciada em atari e agora pratica tênis em seu nintendo wii. andré continua atrás de loiras peitudas que jogam videogame. infelizmente camila não é uma loira peituda. albuquerque é hetero. lemes é metro. lucas é homo. denis é bi. roger é trans. josemar é machista. bruno toca baixo e gosta de se fantasiar de jedi para sua namorada. frederico é baterista e decora 20 arranjos de um dia pro outro. diego toca tamborins envenenados. henrique é tecladista e nos anos oitenta tinha 56 sintetizadores. luiz é guitarrista e eventualmente faz bicos em novelas das seis. todo infinito cabe dentro de um segundo. todo mundo, sem exceção, é um mundo.


Octávio Scapin, do Blog do Scapin.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Outoniza-te

Fala, Amendoeira


Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios eléctricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.


Carlos Drummond de Andrade - Fala, amendoeira (1957)
Hai-Kai de Outono

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mário Quintana

domingo, 20 de março de 2011


'Infelicidade é questão de prefixo.'

Guimarães Rosa

**
Amém!
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.


Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.


Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.


Hoje é Dia de Maria
Sebastião da Gama, in "Pelo Sonho é que Vamos

terça-feira, 8 de março de 2011

“Nada é tão forte quanto a delicadeza e nada é tão delicado como a força verdadeira”

[Desconheço o autor]

Todo dia é nosso dia...

Os homens distinguem-se pelo que fazem,
as mulheres pelo que levam os homens a fazer.

Drummond

domingo, 6 de março de 2011


"Meu coração estava grávido. Grávido de um coração de vazios. Grávido de um coração oco. Que viveu de quases. Quase amor, quase entrega, quase coragem, quase inteiro, quase ele mesmo. Quase. Meu coração grávido tudo viveu, tudo disse, tudo fez. Agora, não há mais nada. Nada a dizer, a fazer, nada a somar. Meu coração estava grávido de uma história só sua, tentando em vão entrar num roteiro fechado. Grávido e solteiro. Meu coração estava grávido de um amor só meu. Não respirou outro ar, não bebeu de outro leite. Quase morreu à míngua. Mas era de si mesmo que o meu coração estava grávido. Meu coração pariu outro coração de mim mesma e agora está vazio. Mas é um vazio bom. Vazio de outro vazio, meu coração se enche de si. Vazio de prisões, meu coração está cheio de possibilidades. Eu o sinto vazio e quieto. Eu o sinto em paz."

Cris Guerra

sexta-feira, 4 de março de 2011

E lá vem o carnaval...

velório às pressas
o corpo perece mui rápido
o cortejo funebre segue
eles cantando com pesar
a partida, a passagem,
a ida, a esperança
de um reencontro
todos vão cantando
entre soluços e lágrimas...
mas aqui é Brasil
em época de carnaval
ninguém quer saber disso
e cantam sobre o país
enquanto desfilam na avenida
cantam a alegria inacabável
que todo mundo sempre sente
como se a vida não bastasse
e a morte não chegasse
e o mundo acaba em beijo
beijos, festas, danças
pulos e pura alegria
no final do baile
as máscaras ficam na rua
com seus sorrisos largos
largados sozinhos



Débora Paixão
Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.


Drummond
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.


Drummond

quarta-feira, 2 de março de 2011



Ah, música linda, não é!?
Gosto muito e a história dela sempre me fascina.
Muita gente sabe, mas eu vou repetir.
A música foi composta por Vinícius de Moraes para seus netos e inspirada na obra de Vilaró, a Casapueblo. Os dois últimos versos não eram "mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos, número zero" e sim "mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró".
Olha a casa aqui. Linda, linda!


**


Queria agradecer a todos os jardineiros que tem passado por aqui. A alegria de vocês, os recadinhos, uma semente aqui, um pouco de água ali... tudo isto é que faz florir este espaço e trazer borboletas.
Obrigada ^^
beijos furta-coloridos
 
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás... Seremos...


Neruda
PAI NOSSO


Pai... de olhos mansos,
sei que estás invisível em todas as coisas.
Que o Teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.
Traze-nos as coisas boas em que tens prazer: os jardins, as fontes, as crianças, o pão, o vinho, os gestos ternos, as mãos desarmadas, os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo, desejo cujo nome esqueci... mas Tu não esqueces nunca.
Realiza pois o meu desejo para que eu possa rir.
Que o Teu desejo se realize em nosso mundo, da mesma forma como ele pulsa em Ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje: o pão, a água, o sono...
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os Teus são para conosco.
Porque, se formos ferozes, não poderemos acolher a Tua bondade.
E ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos desejos maus.
E livra-nos daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.
Amém.


Rubem Alves

terça-feira, 1 de março de 2011

Assim

Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão,
Dava prá ver o tempo ruir
Cadê você?
Que solidão!
Esquecera de mim?

Enfim,
De tudo o que
Há na terra
Não há nada em lugar
Nenhum!
Que vá crescer
Sem você chegar
Longe de ti
Tudo parou
Ninguém sabe
O que eu sofri...

Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...

Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...

Só sei viver
Se for por você!

 
Djavan