sábado, 10 de dezembro de 2011

O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

3 comentários:

  1. Desculpa a invasão =)

    Sou fã de Fernando Pessoa e seus heterónimos!

    Bela publicação!

    ResponderExcluir
  2. passando pra deixar um beijo
    desejar Luz
    e dizer que foi bom passar o ano entre lindas palavras...

    ResponderExcluir

Deixe aqui sua semente. É ela que enche de flores este lugar!
Obrigada pela visita! ^^
Seja sempre bem vindo ao Jardim.