sábado, 22 de dezembro de 2012


Um 2013 lindo!


No ano novo, bem mais do que nos outros, quero alimentar o meu coração com mais daquilo que eu sei que ele gosta e é capaz de nutri-lo. Quero escolher com todo amor os ingredientes de cada refeição. Cozinhar mais vezes para ele. Usar os temperos que mais aprecia. Dedicar um tempo maior para preparar a mesa. E, depois de servi-lo, desfrutar a delícia de vê-lo saborear o que preparei. Curtir o conforto de me saber responsável pelo seu contentamento. Aquele gostinho bom do “fui eu que fiz pra você”.

No ano novo, bem mais do que nos outros, quero ter mais gentileza com os meus sentimentos. Com todos eles, sem exceção. Quero ter mais habilidade para ouvir o que têm pra me contar, sem tentar abafar a voz daqueles que podem me trazer desconforto. Quero deixar que se expressem, exatamente com a cara que têm. Que me façam surpresas. Que me apontem as mudanças que já aconteceram e me falem sobre aquelas que pedem para acontecer. Quero que me mostrem as regiões ainda feridas em mim que precisam de olhar, de cura ou de perdão. Não quero sentimento acuado, amordaçado, varrido pra debaixo do tapete. Quero ser a melhor confidente de cada um.

No ano novo, bem mais do que nos outros, quero ter mais cuidado com os sentimentos alheios. Mais compaixão. Mais empatia. Mais tolerância. Suspender o julgamento. Trocar a crítica pelo respeito. Parar de achar que eu faria diferente, que eu diria diferente, quando não é a minha vida que está na berlinda. Quero lembrar mais vezes o quanto nos exige cada superação, cada avanço, cada conquista, cada descoberta das chaves capazes de abrir os cárceres que inventamos para nós. Quero lembrar mais vezes do quanto eu falho, mesmo quando quero acertar. Do quanto eu ainda me atrapalho comigo. Do quanto preciso ser generosa com a minha trajetória a cada novo projeto anunciado pela minha alma. A cada nova tentativa. A cada novo tropeço.

No ano novo, quero me encantar mais vezes. Admirar mais vezes. Compartilhar mais amor. Dançar com a vida com mais leveza, sem medo de pisarmos nos pés uma da outra. Quero fazer o meu coração arrepiar mais freqüentemente de ternura diante de cada beleza revista ou inaugurada. Quero sair por aí de mãos dadas com a criança que me habita, sem tanta pressa. Brincar com ela mais amiúde. Fazer arte. Aprender com Deus a desenhar coisas bonitas no mundo. Colorir a minha vida com os tons mais contentes da minha caixa de lápis de cor. Devolver um brilho maior aos olhos, aos dias, aos sonhos, mesmo àqueles muito antigos, que, apesar do tempo, souberam conservar o seu viço. Quero sintonizar a minha freqüência com a música da delicadeza. Do entusiasmo. Da fé. Da generosidade. Das trocas afetivas. Das alegrias que começam a florir dentro da gente.

No ano novo, bem mais do que nos outros, quero ter atenção com relação ao que sinto, ao que vejo, ao que propago. Mais cuidado para não me intoxicar com os apelos do medo e do pessimismo, tão divulgados nesses nossos tempos. Usufruir mais a sábia isenção que nos permite continuar a ver o melhor para a nossa vida e para a vida de todos os seres, apesar de. Não me importa se eu olhar na contramão: quero ter a coragem de sustentar a minha crença de que o amor, a paz, a luz, hão de prevalecer na Terra, e, enquanto isso não acontecer, quero dirigir também a minha energia ao propósito de que prevaleçam em mim.

No ano novo, bem mais do que nos outros, eu quero me sentir feliz. Uma felicidade que não está condicionada à realização das coisas que, particularmente, anseio para mim. Para a minha história nesse mundo. Para essa personagem que eu visto. Quero, antes de qualquer outra razão, me sentir feliz por encontrar descanso e contentamento no meu coração. Por tocar com o sentimento a preciosidade da vida. Por saber que existem coisas para eu realizar enquanto estou por aqui. Por acreditar que a maior proposta da idéia humana é a felicidade. Não importa quantas nuvens eu possa ter que dissipar no ano que começa: gente, por natureza, é sol, e eu quero viver esse lume.



Ana Jácomo

Feliz Natal!


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Conto de um Girassol ou Maria da Graça Gira o Sol



Maria da Graça. Bem, não era nome de batizado, mas o que ela trazia consigo. Era mais conhecida como Mariazinha. Verdade mesmo que ela não trazia graça só no nome, mas no coração também. É que Mariazinha espalhava vida por onde passava, como naquelas típicas cenas de filme, em que a personagem passa e tudo vai ficando colorido. Aliás, se Mariazinha fosse um filme, seria daqueles que a gente se alegra só de ver o cartaz. Tinha nela todas as cores de Frida Kahlo. Era linda de se ver. Sorria pros pássaros, pras pedrinhas, pro vento, pra lua. Pra explicarem tanto brilho que ela irradiava, diziam até que ela era filha do sol. História da qual eu nunca ousei duvidar. Até porque nunca achei explicação pr’aqueles caracóis resplandecentes e dourados, que desciam até quase a altura dos ombros, ali perto do sorriso. Ah, e que sorriso o de Mariazinha...! Azul-anil, aquele branco de fechar os olhos e que vinha duma covinha à outra, na maior das matraquices.

Mariazinha dizia adorar girassóis. Encheu um lote inteiro deles. Era o Reino Gira o Sol. Lá passava seus dias, entre regar e plantar mais alguns. Mas, por um ali, Mariazinha nutria uma admiração a mais. Ela dizia que era a flor maior do seu jardim. Na verdade era uma flor-mãe, pois quando Mariazinha foi plantada aqui, esta flor foi uma das primeiras a (a)colhê-la. Era uma grande flor! Já não bastasse toda a beleza típica dos girassóis, ela carregava em si um brilho a mais, como se o próprio Deus a tivesse tocado, na ponta das pétalas, com dedo cheinho de inocência e salpicado um bocado de sabedoria.

Mariazinha gostava especialmente das tardes em que passava, ao pé da flor, a tecer longas horas de conversas. Foi com ela que a menina aprendera a ver o invisível com os olhos de dentro, a tocar no céu com a ponta dos dedos e provar o gosto de cada nuvem, a segurar o vento com a mão... esses segredos que só ela sabia. Aprendera também a parar o tempo, ao menos Mariazinha achava que sim, pois perto da flor o relógio parecia meditar as horas e não passá-las.

Foi numa dessas conversas que a menina notou algo diferente, um olhar assim meio longe, um abraço mais apertado na hora de ir passear por outros cantos do Reino. Neste exato momento Mariazinha levou a mão ao peito, tentava segurar o aperto do coração, o nó que queria saltar pela garganta. Não adiantou, estava feito. A flor ensinara tudo, era hora de Mariazinha seguir pelo passeio sem a flor.

O Reino Gira o Sol parou, cada girassol encurvava-se por onde a menina passava. Pareciam sentir também o peso que a menina sentia. E Mariazinha só conseguia dizer: “eu vou ficar saudade”. Quanta sabedoria! Mariazinha acabara de sentir o significado do que a flor tanto lhe ensinava.

Mariazinha percebeu que saudade não é como uma bolsa, uma carga que se leva consigo. Saudade não é com. Saudade é estado, estado permanente. É quando a gente ama tanto que faz tudo pensando no ser amado e em tudo a gente o vê. E a gente vai sentindo tanto o outro até percebermos que o carregamos no corpo, no peito, na alma. Saudade é quando a presença existe, mesmo com a ausência. É consolo, porque, no fundo, quem a gente ama está sempre ali do lado, cantarolando aquela música doce.

E era isto: Mariazinha carregava consigo a flor duma forma tão bonita, que em tudo que ela fazia a flor ali também estava. Em cada caminho a flor continuava a lhe apontar os pássaros e a segurar na mão da menina para voarem juntas pelo céu do Reino. E assim, à tarde, era sempre possível ver as duas numa nuvem macia qualquer, a provar do doce duma outra nuvem-rosada ao lado. E por serem duas tão uma, Mariazinha foi rebatizada de Maria da Graça Gira o Sol. É, não havia dúvidas. Mariazinha era mesmo filha do astro-rei.



Branna Lorenna

Para um amiga querida.




sábado, 1 de dezembro de 2012


Alice suspirou enfastiadamente. "Eu acho que você deveria fazer coisa melhor com seu tempo", ela disse, "ao invés de gastá-lo com charadas que não têm resposta."

"Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço", o Chapeleiro falou, "não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa."

"Eu não sei o que você está dizendo", disse Alice.

"Claro que não!", o Chapeleiro disse, sacudindo a cabeça desdenhosamente. "É muito provável que você nunca tenha falado com o Tempo!"

"Talvez não", Alice replicou cautelosamente, "mas eu sei que tenho que marcar o tempo quando aprendo música."

"Ah! Isso explica", concluiu o Chapeleiro. "Ele não vai ficar marcando compasso para você. Agora, se você ficar numa boa com ele, poderá fazer o que quiser com o relógio. 



Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Bia e Mark - Trailer from 3 mais 1 Filmes on Vimeo.

“Não é coincidência demais o amor da sua vida aparecer justo na sua vida?”
(A Dona da História - Filme)

Lindo trabalho da 3 +1 Filmes.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

LIRA DOS QUARENTA ANOS
(Ao Grande Poeta Álvares de Azevedo)


Teu umbigo é uma taça em meia lua:
não lhe falte o licor!
Teu abdome é um monte de trigo cercado de lírios.
Teus dois seios são como dois filhotes
Gêmeos de uma gazela.
(Bíblia – Cântico dos Cânticos 7, 3)


Tu não sabes dos caminhos amargos
Por onde andei
Não tens noção do quanto sofri

Por não ter beijado aqueles lábios
Por não ter tido aquele corpo
Por não ter amado aquela alma

Que sempre me quis, e eu – pobre poeta
Sempre me esquivei
Da possibilidade de vivê-los

Quão chora meu despedaçado coração
Quanto sangue de minhas veias abertas
Enchem as represas da minha amarga solidão

Pobre desgraçado sou eu
Que não suporta mais sangrar de arrependimento
Que não suporta mais olhar para esse infeliz guerreiro
[covarde

Desertor da própria vida
Aquele que não teve coragem de viver de verdade
A lira dos seus vinte anos
Poderia ter beijado – não beijei
Poderia ter amado – não amei
Poderia ter dançado todas as bossas – não dancei


Poderia ter abraçado teu corpo – não pude... perdoai
Poderia ter feito loucuras – tive medo
Tudo poderia ter sido – mas não foi
[morri aos vinte anos

Minha morte foi suicídio disfarçado
Escondi minhas vontades por detrás da coxia da morte

Tive medo de pisar no palco
Tive medo de entrar em cena
Tive medo de viver a plenitude
Da lira dos meus vinte anos

Hoje no alto dos meus quarenta anos, continuo morto
Sem ter beijado teus lábios virgens
Sem ter tocado nos teus seios rijos

Sem ter vivido as deliciosas liras
Da minha
Vida







Pedro Cáceres

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma. Felicidade se acha é só em horinhas de descuido.

Guimarães Rosa


via Miscelânea.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

"É um contentamento descontente"


Falam tanto sobre o amor, querem tanto vivê-lo. Mas ninguém sabe dizer exatamente o que é. Acredito que o amor esteja contido nos pequenos detalhes, nesses momentos sagrados, mas intocáveis por parecerem insignificantes. Por esse motivo, algumas pessoas não acreditam nesse sentimento bonito e acolhedor. Certas coisas só são visíveis para aqueles que creem. Não é possível ter algo tão bonito nas mãos quando se precisa de provas para julgá-lo existente. Não é possível fazer parte desse círculo mágico do amor quando não se tem coragem de entrar na roda de olhos vendados.

Confundem o amor com tantos sentimentos: paixão, atração, amizade, companheirismo. Quando ele não é nada disso e tudo ao mesmo tempo. Amor é o que resta depois que todos os outros sentimentos vieram ao chão. É o que fica quando a amizade foi comprometida por um erro, quando a paixão e a atração se esvaíram por um problema qualquer, quando o companheirismo mandou lembranças depois que um dos dois passou por uma crise existencial. Mas é também precisar ter tudo isso para se sentir amada e claro, sentir-se capaz de amar. É complicação. É calmaria. É montanha-russa. E a paz de saber que o brinquedo percorreu a trajetória e parou. Já se pode descer, pegar na mão do seu amor e ir passear enquanto o Sol dança com vocês enroscados entre o algodão doce e os brinquedos que foram ganhos no tiro ao alvo.

Amor é se sentir seguro no escuro, simplesmente por enxergar luz nos olhos do outro. É identificar um cheiro entre mil outros. É quando algo que antes não tinha qualquer importância começa a ser motivo de lembrança, de riso no meio da tarde, de sonhar bonito mesmo acordada. Amor é o que a gente não vê e não consegue traduzir, mas quer que tenha um cheiro, um nome, um endereço, uma voz que diz "estou com saudade" quando menos se espera.



[Noemyr Gonçalves]

*Título é Luís de Camões

Texto descaradamente tirado daqui: http://retalhos-de-amor.blogspot.com.br/
É impossível me deparar com um texto lindo assim e não plantá-lo aqui.

domingo, 4 de novembro de 2012

É o que me interessa


Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa

Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

Lenine 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012




"Digo-vos: é preciso ter ainda
um caos dentro de si para poder dar à luz
uma estrela dançarina."

Nietzsche

domingo, 21 de outubro de 2012



"O que as pessoas mais desejam
É alguém que as escute de maneira calma e tranquila.
Em silêncio.
Sem dar conselhos.
Sem que digam: "Se eu fosse você".
A gente ama não é a pessoa que fala bonito.
É a pessoa que escuta bonito.
A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta.
É na escuta que o amor começa.
E é na não-escuta que ele termina.
Não aprendi isso nos livros.
Aprendi prestando atenção."


Do querido Rubem Alves, em O AMOR QUE ACENDE A LUA




quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Foge o sono.
Fica o sonho.
Turvo.


*


Quisera meter goela abaixo a dor.
Ou a lembrança.
Tarde demais.

Tenho um poema entalado na garganta.
E não há maldição pior que esta.



Branna L.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.

Rubem Alves 

*
Você estava usando um terno comum, vestido para o trabalho no escritório, com um cabelo incrivelmente bagunçado. Eu era a garota de cabelos castanhos encaracolados e blusa com estampa de cavalos. Estávamos naquele momento constrangedor em que dois estranhos ficam em vai-e-vem, tentando avançar e, ao mesmo tempo, atrapalhando o caminho um do outro. Foi então que você me tirou para uma mini-valsa no meio dos transeuntes irritados, em pleno horário de almoço. Gostaria de entender esse momento agora: duas pessoas partilhando de um segundo delicado em um dia que não tinha correspondido aos planos. Mas quando isso aconteceu, eu tinha apenas vinte-e-poucos anos e era desajeitada demais. Na hora, eu só franzi a testa e fui embora rápido, esperando que ninguém tivesse notado. Obrigada por transformar aquele dia em algo especial.


*
Ilustração e texto lindos do livro Missed Connections, de Sophia Blackall. Neste projeto, Sophia representa histórias de amor improváveis, momentos rápidos e únicos que são capazes de parar o tempo. Em suas próprias palavras:
"Every day hundreds of strangers reach out to other strangers on the strength of a glance, a smile or a blue hat. Their messages have the lifespan of a butterfly. I'm trying to pin a few of them down."

Para ler o texto original em inglês é só clicar aqui



Sobre algumas merdas da vida...

‎Tô cagando e andando.
Tô cagando e andando.
Tô cagando e andando.
Mas, como a terra é redonda, eu sempre acabo pisando nas merdas que faço.


Hugo Possolo

terça-feira, 2 de outubro de 2012


Porque sem amor não dá pra começar. Mas apenas com ele, não dá pra seguir.


Branna L.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012


receita para uma vida mais bela:
cataventos na janela.


Branna L.




E que seja corrida a semana,
o trânsito,
a vida.
Que tudo passe rápido.
E nada mais seja leve.
Porque já vi que o tempo leva.
E que não faz sentido seguir com as pernas
o que a alma não consegue levar em frente.
Que passe tudo com um furacão.
Que me sobrem os cacos.
Farei vitrais.


Branna L.

Não jogo cartas fora, todas as fotos continuam intactas. E, se quiser saber, na vitrola ainda está aquele blues. Eu ainda danço e cantarolo ele de cor.
Eu sei, não consigo seguir a Filosofia do Desapego, mas entenda: tudo aquilo é memória - pedaços de mim.
É tão bom olhar pra trás e rever tudo - sem dor, sem culpa - e até mesmo perceber uma leve pitada de ironia-da-vida.
É como assistir um filme de mim mesma. O engraçado é que, apesar de tê-lo vivido, eu sempre descubro um novo brilho no olhar, ou um sorriso que me passou desapercebido.
Só não descubro você lá.
Ao menos não o 'você' que eu vivi.
Mas, sabe, é bom esse sentimento.
Há uma paz nisto tudo que talvez só eu entenda. 
Enfim, livre. 
Rever a cicatriz e não sentir dor, nem raiva, nem pena.
Não sentir, simplesmente.
Penso que talvez seja esse meu mais puro lado. Aquele que você não viu ao virar o disco de blues.

Branna L.


sábado, 2 de junho de 2012

quando se perde um braço ou uma perna 


quando se perde um braço ou uma perna
o membro perdido continua a coçar, reza
a lenda e a revista super interessante, e eu
que nunca amputei um braço ou uma perna
mas já perdi de vista algumas partes de mim
mesmo de vez em quando sinto coçar pessoas
que eu perdi de vista porque foram morar longe
cansaram-se de mim ou morreram de desastre







Gregório Duvivier

domingo, 18 de março de 2012



"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! 

Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho" 

Eça de Queiroz, O Primo Basílio 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012



"Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples
e tão puras como a água bebida na concha das mãos."


Mário Quintana

sábado, 28 de janeiro de 2012


“We are all a little weird and life’s a little weird, and when we find someone whose weirdness is compatible with ours, we join up with them and fall in mutual weirdness and call it love.”


Dr. Seuss