segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Conto de um Girassol ou Maria da Graça Gira o Sol



Maria da Graça. Bem, não era nome de batizado, mas o que ela trazia consigo. Era mais conhecida como Mariazinha. Verdade mesmo que ela não trazia graça só no nome, mas no coração também. É que Mariazinha espalhava vida por onde passava, como naquelas típicas cenas de filme, em que a personagem passa e tudo vai ficando colorido. Aliás, se Mariazinha fosse um filme, seria daqueles que a gente se alegra só de ver o cartaz. Tinha nela todas as cores de Frida Kahlo. Era linda de se ver. Sorria pros pássaros, pras pedrinhas, pro vento, pra lua. Pra explicarem tanto brilho que ela irradiava, diziam até que ela era filha do sol. História da qual eu nunca ousei duvidar. Até porque nunca achei explicação pr’aqueles caracóis resplandecentes e dourados, que desciam até quase a altura dos ombros, ali perto do sorriso. Ah, e que sorriso o de Mariazinha...! Azul-anil, aquele branco de fechar os olhos e que vinha duma covinha à outra, na maior das matraquices.

Mariazinha dizia adorar girassóis. Encheu um lote inteiro deles. Era o Reino Gira o Sol. Lá passava seus dias, entre regar e plantar mais alguns. Mas, por um ali, Mariazinha nutria uma admiração a mais. Ela dizia que era a flor maior do seu jardim. Na verdade era uma flor-mãe, pois quando Mariazinha foi plantada aqui, esta flor foi uma das primeiras a (a)colhê-la. Era uma grande flor! Já não bastasse toda a beleza típica dos girassóis, ela carregava em si um brilho a mais, como se o próprio Deus a tivesse tocado, na ponta das pétalas, com dedo cheinho de inocência e salpicado um bocado de sabedoria.

Mariazinha gostava especialmente das tardes em que passava, ao pé da flor, a tecer longas horas de conversas. Foi com ela que a menina aprendera a ver o invisível com os olhos de dentro, a tocar no céu com a ponta dos dedos e provar o gosto de cada nuvem, a segurar o vento com a mão... esses segredos que só ela sabia. Aprendera também a parar o tempo, ao menos Mariazinha achava que sim, pois perto da flor o relógio parecia meditar as horas e não passá-las.

Foi numa dessas conversas que a menina notou algo diferente, um olhar assim meio longe, um abraço mais apertado na hora de ir passear por outros cantos do Reino. Neste exato momento Mariazinha levou a mão ao peito, tentava segurar o aperto do coração, o nó que queria saltar pela garganta. Não adiantou, estava feito. A flor ensinara tudo, era hora de Mariazinha seguir pelo passeio sem a flor.

O Reino Gira o Sol parou, cada girassol encurvava-se por onde a menina passava. Pareciam sentir também o peso que a menina sentia. E Mariazinha só conseguia dizer: “eu vou ficar saudade”. Quanta sabedoria! Mariazinha acabara de sentir o significado do que a flor tanto lhe ensinava.

Mariazinha percebeu que saudade não é como uma bolsa, uma carga que se leva consigo. Saudade não é com. Saudade é estado, estado permanente. É quando a gente ama tanto que faz tudo pensando no ser amado e em tudo a gente o vê. E a gente vai sentindo tanto o outro até percebermos que o carregamos no corpo, no peito, na alma. Saudade é quando a presença existe, mesmo com a ausência. É consolo, porque, no fundo, quem a gente ama está sempre ali do lado, cantarolando aquela música doce.

E era isto: Mariazinha carregava consigo a flor duma forma tão bonita, que em tudo que ela fazia a flor ali também estava. Em cada caminho a flor continuava a lhe apontar os pássaros e a segurar na mão da menina para voarem juntas pelo céu do Reino. E assim, à tarde, era sempre possível ver as duas numa nuvem macia qualquer, a provar do doce duma outra nuvem-rosada ao lado. E por serem duas tão uma, Mariazinha foi rebatizada de Maria da Graça Gira o Sol. É, não havia dúvidas. Mariazinha era mesmo filha do astro-rei.



Branna Lorenna

Para um amiga querida.




3 comentários:

  1. Branninha su flori linda!!! Gosto tanto desse conto... é o tipo de coisa que me deixa com sorriso largo no rosto. Nossa, você não tem noção de como isso faz bem pra minha alma, de como é bom saber que existe pessoas tão lindas assim como você... que escreve coisas que me faz chorar, mas de alegria. E o encantador é que sei o quanto foi sincera em cada linha... :)

    Obrigada, bonequinha!!! :)

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  2. Que lindooo, Frô!

    Tanta docilidade, paz, harmonia, luz :)

    Amei!

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  3. "E Mariazinha só conseguia dizer: 'eu vou ficar saudade'.(...)
    Mariazinha percebeu que saudade não é como uma bolsa, uma carga que se leva consigo. Saudade não é com. Saudade é estado, estado permanente. É quando a gente ama tanto que faz tudo pensando no ser amado e em tudo a gente o vê. E a gente vai sentindo tanto o outro até percebermos que o carregamos no corpo, no peito, na alma. Saudade é quando a presença existe, mesmo com a ausência. É consolo, porque, no fundo, quem a gente ama está sempre ali do lado, cantarolando aquela música doce."

    Adorei esse trecho. Abraço, Branna!! Feliz Ano Novo!!

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