quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


"A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência?"

Ana Jácomo

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ovo frito


Gosto muito de ovo. Ovo frito. Ovo escaldado, com pão torrado. Coisa boba, o fato é que comecei a pensar sobre as razões por que gosto de ovo. Lembrei-me... Meu pai era viajante. Passava a semana fora de casa. Voltava às sextas-feiras, no trem das oito. Noite escura, o trem das oito vinha apitando na curva, resfolegando de cansado, expelindo enxames de vespas vermelhas, chamuscava uma paineira, entrava na reta, passava a dez metros da nossa casa, todos nós estávamos lá, o pai com a cabeça de fora, sorrindo, e todos corríamos para a estação. Ele vinha com fome e sujo. Água quente não havia. Mas não tinha importância. Da leitura do Evangelho havíamos aprendido de Jesus, no lava-pés, que quem está com os pés limpos tem o corpo inteiro limpo. A coisa, então, era lavar os pés. E esse era o costume geral lá em Minas. Minha mãe esquentava água no fogão de lenha, punha numa bacia e eu lavava os pés do meu pai. Depois de limpo, ele se assetava à mesa e o que tinha para comer era sempre a mesma coisa: arroz, feijão, molho de tomate e cebola, ovo frito e pão. Ele me punha assentado ao joelho e comia junto. Ah, como é gostoso comer pão ensopado no molho de tomate, pão lambuzado no amarelo do ovo! Era um momento de felicidade. Nunca me esqueci. Acho que quando enfio o pão no amarelo mole do ovo eu volto àquela cena da minha infância. Os poetas, somente os poetas, sabem que um ovo é muito mais que um ovo...

Rubem Alves

sábado, 26 de janeiro de 2013

Os tempos de muda



Os passarinhos quando estão na muda parecem tristes. Não sei se ficam, de fato, nunca entrevistei nenhum, mas que parecem, parecem. Costumam se recolher, ficar na deles, fazer poucos movimentos, guardar o canto. É como se voassem temporariamente para um lugar feito de quietude e necessária solidão. É como se precisassem economizar toda a energia possível para a valiosa tarefa que está sendo realizada e que não é concluída da noite para o dia, como num passe de mágica. Não dormem de um jeito e amanhecem de outro, a roupa toda bonita, prontos pra passeio. Há que se ter paciência. Nunca li nada a respeito, pura observação: convivi com muitos pássaros na minha infância, não é por acaso que eles voam com tanta frequência no meu imaginário poético.
Olhando de lá, lembro com nitidez, eu não conseguia entender por que eles ficavam daquela maneira só porque estavam trocando as penas. Deveriam se sentir felizes por ganhar roupa nova, eu imaginava nas minhas associações infantis. Por mais que tentassem me explicar o que acontecia, eu não me sentia esclarecida, achava que era pouco motivo para uma mudança de comportamento tão grande. Vai ver que isso dói, eu pensava, solidária. Olhando daqui, continuo sem ter certeza se muda de pássaro é doída, mas descobri durante o caminho, ao sentir na própria pele, que muda de gente é. Cada nova que acontece, e acontece com todo mundo de tempo em tempo.
Eu observava, lá na infância, que o momento em que os passarinhos pareciam ficar mais quietos e tristes coincidia com a fase intermediária entre a plumagem antiga e a nova, a fase do que não era mais e nem era ainda. Talvez tenham saudade da roupa desfeita, talvez se sintam envergonhados por se mostrarem nus, talvez sintam frio, talvez sintam medo de que as novas penas não nasçam, tudo isso passava pela minha cabeça ao vê-los cabisbaixos, sem cantar. Não sei o que, de verdade, acontecia no coraçãozinho deles, mas acho que a fase intermediária da mudança de pele da alma é a mais delicada de todas no processo das mudas periódicas que acontecem com a gente. Esse lugar de profunda transformação é precioso, mas vivê-lo dá um baita medo.
Sentir o coração desnudo, tantos sentimentos à mostra, um monte de ilusões e apegos sendo dissolvidos, uma reviravolta imensa, e não contar mais com o que se desfez, nem ainda com o que está sendo tecido é mesmo assustador. Não há como retornar ao que já não existe nem como adiantar o relógio para se chegar rapidamente ao que ainda não é. Experimentar na própria alma a força terna e tecelã da vida, ao mesmo tempo em que nos sentimos tão frágeis, é um desafio que requer paciência, toda gentileza e muita fé. As novas flores já moram nos brotos, mas ainda não desabrocharam. A chuva de renovação está dentro das nuvens, mas elas ainda não verteram. A borboleta já voa na crisálida, mas ela ainda nem se deu conta da novidade de ter asas.
Aprendi com os pássaros, e reaprendo sempre comigo, que o tempo da muda sempre passa, como acontece com tudo. Que vale a pena confiar na chegada do novo que a natureza tece, silenciosamente, para todos os seres, e que ele chega, por mais que às vezes demore um pouquinho e até pareça que não. Que a mudança é o que existe de mais natural, inevitável e necessário para toda forma de vida, apesar do nosso grande receio do desconhecido. Que até o novo nascer é necessário viver essa travessia feita de espera, promessa e espanto com a máxima sabedoria e generosidade que conseguirmos. Que até o novo nascer há que se ter cuidado com a delicadeza desse momento de desapego ao que não é mais e de esperança pelo que será.

As árvores floridas viveram seus invernos, ficaram nuas, quem sabe sentiram frio à beça, mas, olhando para elas, quem diz? 




Ana Jacomo


*

Rubem e Manoel falam do 'estado de ser árvore', de aprender a ser semente, muda, se desnudar pra virar árvore frondosa. De aprender estações, cor do céu, aprender sobre as mudanças. E, na maior singeleza, me apresentam a este texto da Ana Jácomo. Obrigada, Cari, gostei muito mesmo!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Manoel de Barros ♥



"Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade."
Manoel de Barros ♥


tenho andado fraco
levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
hay

Paulo Leminski

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Quimeras


Quando ficar triste, achando tudo mentira, verá sonhos invertidos: como imagens no espelho mostrando por antônimos o que o outro queria ter sido. Não brigue: a verdade mais frágil saberá dele.


Rita Apoena

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Não faz muito, esses dias mesmo, a vida me bateu à porta com um novo amigo. E eu, com cara de espanto, fui pensando em arrumar a casa, alinhar os quadros, esconder o pó por debaixo dos tapetes. Oh, quanta tolice! O amigo era de verdade! Amigo daqueles que a alma já conhece há tempos. E ele foi tratando de entrar, colocar as sandálias de lado e me ajudar a limpar tudo enquanto conversávamos. Porque amigo mesmo é assim, 'é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado'¹, sem se preocupar com nada, e quando a gente vê, meio que por mágica, lá está tudo no seu devido lugar. Agora minha casa tem 'cheiro de flor quando ri'² e feliz de mim: ganhei um sorriso a mais pra enfeitar meu dia.

Branna Lorenna

¹ Guimarães Rosa.
² Ana Jácomo


 E a vida vai tecendo laços
 Quase impossíveis de romper:
    Tudo o que amamos são pedaços
    Vivos do nosso próprio ser.
  

Manuel Bandeira    


"Os deuses prendem um fio vermelho no tornozelo de cada um de nós e o conectam a todas as pessoas cujas vidas estamos destinados a tocar. Esse fio pode esticar-se ou emaranhar-se, mas nunca irá se romper."
Lenda chinesa

*
Há tempos tenho uma história na minha cabeça. Assim, meio vulto. E ela me chama, me atina a curiosidade. Tento segurá-la e ela me escapa das mãos, feito vapor. Fico assim, a ver, de longe, seus contornos. É um conto de amor. Algo como uma lenda chinesa, fios de eternidade. E sempre que penso na história, sinto paz. Talvez seja pra ser assim, um conto que minha alma se conta todo dia, uma história pra se fazer ninar. Talvez seja assim, pra aprender que o amor não depende de palavras pra se expressar, que ele fala com a língua de dentro, aquela que só o coração entende... e que só alma sabe contar.

Branna Lorenna

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Um poema pousou na minha mão

Como uma pena

Dengosa e pequena

Guiada pelas mãos ternas

De uma brisa suave


Rodopiou, o poema

Fez firula no ar

Velocidade ventou

- o poema veio pousar na minha mão

Abri sorriso bobo

Olhei

Olhei

Olhei

Poema não se moveu

Era belo

Era leve

Acalentava a alma

Vê-lo assim, pousado na mão

Tão belo que, confesso

Quis prendê-lo no papel

Para mostrá-lo a vocês

Mas o poema, que coisa,

Pegou carona na próxima brisa

Restou mão vazia

Papel em branco

(onde fiz esses rabiscos)

E a visão do poema sumindo

Nas asas do infinito.




Carlos Cruz, do 
http://experimentandome.blogspot.com.br/

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"E o amigo novo chega na vida da gente e fica tão à vontade que tem hora que parece até amigo antigo, essa história do tempo do coração tantas vezes não ter nada a ver com o do calendário. É como se os vínculos de afeto já existissem no vasto território da alma, antes de acontecerem, de fato.(...) "


Ana Jácomo


*

Pra uma 'nova' grande amiga, a Cari! ^^

sábado, 5 de janeiro de 2013