sábado, 26 de janeiro de 2013

Os tempos de muda



Os passarinhos quando estão na muda parecem tristes. Não sei se ficam, de fato, nunca entrevistei nenhum, mas que parecem, parecem. Costumam se recolher, ficar na deles, fazer poucos movimentos, guardar o canto. É como se voassem temporariamente para um lugar feito de quietude e necessária solidão. É como se precisassem economizar toda a energia possível para a valiosa tarefa que está sendo realizada e que não é concluída da noite para o dia, como num passe de mágica. Não dormem de um jeito e amanhecem de outro, a roupa toda bonita, prontos pra passeio. Há que se ter paciência. Nunca li nada a respeito, pura observação: convivi com muitos pássaros na minha infância, não é por acaso que eles voam com tanta frequência no meu imaginário poético.
Olhando de lá, lembro com nitidez, eu não conseguia entender por que eles ficavam daquela maneira só porque estavam trocando as penas. Deveriam se sentir felizes por ganhar roupa nova, eu imaginava nas minhas associações infantis. Por mais que tentassem me explicar o que acontecia, eu não me sentia esclarecida, achava que era pouco motivo para uma mudança de comportamento tão grande. Vai ver que isso dói, eu pensava, solidária. Olhando daqui, continuo sem ter certeza se muda de pássaro é doída, mas descobri durante o caminho, ao sentir na própria pele, que muda de gente é. Cada nova que acontece, e acontece com todo mundo de tempo em tempo.
Eu observava, lá na infância, que o momento em que os passarinhos pareciam ficar mais quietos e tristes coincidia com a fase intermediária entre a plumagem antiga e a nova, a fase do que não era mais e nem era ainda. Talvez tenham saudade da roupa desfeita, talvez se sintam envergonhados por se mostrarem nus, talvez sintam frio, talvez sintam medo de que as novas penas não nasçam, tudo isso passava pela minha cabeça ao vê-los cabisbaixos, sem cantar. Não sei o que, de verdade, acontecia no coraçãozinho deles, mas acho que a fase intermediária da mudança de pele da alma é a mais delicada de todas no processo das mudas periódicas que acontecem com a gente. Esse lugar de profunda transformação é precioso, mas vivê-lo dá um baita medo.
Sentir o coração desnudo, tantos sentimentos à mostra, um monte de ilusões e apegos sendo dissolvidos, uma reviravolta imensa, e não contar mais com o que se desfez, nem ainda com o que está sendo tecido é mesmo assustador. Não há como retornar ao que já não existe nem como adiantar o relógio para se chegar rapidamente ao que ainda não é. Experimentar na própria alma a força terna e tecelã da vida, ao mesmo tempo em que nos sentimos tão frágeis, é um desafio que requer paciência, toda gentileza e muita fé. As novas flores já moram nos brotos, mas ainda não desabrocharam. A chuva de renovação está dentro das nuvens, mas elas ainda não verteram. A borboleta já voa na crisálida, mas ela ainda nem se deu conta da novidade de ter asas.
Aprendi com os pássaros, e reaprendo sempre comigo, que o tempo da muda sempre passa, como acontece com tudo. Que vale a pena confiar na chegada do novo que a natureza tece, silenciosamente, para todos os seres, e que ele chega, por mais que às vezes demore um pouquinho e até pareça que não. Que a mudança é o que existe de mais natural, inevitável e necessário para toda forma de vida, apesar do nosso grande receio do desconhecido. Que até o novo nascer é necessário viver essa travessia feita de espera, promessa e espanto com a máxima sabedoria e generosidade que conseguirmos. Que até o novo nascer há que se ter cuidado com a delicadeza desse momento de desapego ao que não é mais e de esperança pelo que será.

As árvores floridas viveram seus invernos, ficaram nuas, quem sabe sentiram frio à beça, mas, olhando para elas, quem diz? 




Ana Jacomo


*

Rubem e Manoel falam do 'estado de ser árvore', de aprender a ser semente, muda, se desnudar pra virar árvore frondosa. De aprender estações, cor do céu, aprender sobre as mudanças. E, na maior singeleza, me apresentam a este texto da Ana Jácomo. Obrigada, Cari, gostei muito mesmo!

2 comentários:

  1. Onde quer que nos encontremos, são os nossos amigos que constituem o nosso mundo. - William James

    Por isso hoje estou aqui pra agradecer sua amizade.

    Beijos
    Ani

    http://cristalssp.blogspot.com.br

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  2. Eu sou suspeita pra falar da Ana. Mas é lindo demais esse também!

    Que bom que você tem gostado da Ana, flor! Ela é a maior lindeza. Só os lindos reconhecem isso. Rs :)

    Um beeijo!

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